Terça-feira, Dezembro 30, 2003

As atividades desse blog foram temporariamente (ou não) transferidas para ...
Ass
Julia


Quinta-feira, Dezembro 04, 2003

Esse texto não é meu
Origem: Lost Focus

E a vida se tornou um turbilhão. Uma constante degladiação entre o moleque e o adulto. O moleque resiste, insiste em dizer que tá tudo errado, que crescer é uma merda porque as pessoas se corrompem e se rendem às influências dos outros, abaixando a cabeça pra quase tudo, perdendo a dignidade em troca de míseros tostões. O adulto do alto de um prédio observa o teto cinza e brinca com a onipresença de Deus tomando-a para si, como quem quer uma fuga. O adulto aponta pra um senhor grisalho que atravessa a rua com o rosto cansado, e que muito em breve estará em casa, sentado na poltrona, com um prato de comida apoiado sobre uma das mãos, enquanto sorri com o neto que brinca no chão da sala. E é nesse momento é que tudo vai parecer fazer sentido. A dor que faz o peito arder devido ao esforço que não foi reconhecido , o cansaço por ter trabalhado durante um dia inteiro deixará de exitir. O adulto vence durante alguns instantes. A criança engole seco e se cala compreendo a sua angústia.


Terça-feira, Dezembro 02, 2003

transcrição de um monólogo interpretado por um certo professor de teatro

Primitivo

Olha!
Sumiu árvore comida!
Água grande
Cadê comida?
Deus.

Amém.


Eu não entendo essas coisas, acho que sou racional demais para assuntos de namoro ou amor...
Não consigo entender como pessoas recém-solteiras ficam ouvindo Wando e Kid Abelha. Porra, você está solteiro(a)!!! Tem tanta coisa legal para se fazer!!! Ficar ouvindo música que, além de ser ruim, é um ótimo masturbador de dor-de-solidão...
Dor-de-solidão... Puta merda... Estar solteiro é a melhor coisa e nego fica chorando porque perdeu uma âncora... Uma âncora, por que é isso que um namorado é... Te puxa para baixo, isolando da superfície, onde estão amigos, baladas, cachaçadas, galinhadas e a lua... Um namorado exige todo o seu tempo, é uma merda. (estou desconsiderando, obviamente, a categoria de namorado-exceção)
Tenho uma amiga (anônima) que, recém-solteira, fica publicando no blog dela letras de músicas de Kid Abelha e Legião Urbana.. Coisas do tipo "O nosso amor se transformou em "Bom dia"". É simplesmente irritante!
E não adianta vir com aquela história de "você diz isso porque nunca se apaixonou"... Nunca tive namoros longos, é verdade... Mas a única vez, A ÚNICA VEZ, que eu resolvi me entregar a alguém o filho da puta me sacaneou bonitinho. E não me refiro ao "Essa música ("Garçom, aqui, nessa mesa de bar") é para a Ju" pronunciado em voz alta por algum infeliz em um bar (pictures on my wall). O acontecimento mencionado foi um pouco mais sério.
Bem, chega de digressões... O que queria dizer era que gostei muito desse tiozinho (a ponto de desistir de muitas coisas para estar com ele...) . Continuei gostando dele por muito tempo depois... E se bobear, se encontrar com ele amanhã, sabe-se lá se não vou "ficar de quatro" de novo. Tive a visão de uma vida a dois, a confirmação de um namoro... Mas, como já disse, fui sacaneada pelo "homem da minha vida"... Não ouvi Wando, não chorei trancada sozinha no quarto, não comprei um CD do Kid Abelha nem me imaginei nas músicas de Bruno e Marrone.
Pelo amor de Deus... Tenho bom gosto musical e esse é o tipo de coisa que eu não perco com uma ex-futura-âncora!!! Não deixo um namorado carregar esse tipo de coisa pro fundo do oceano não!

Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
mais uma vez, eu sei

(a categoria "músicas de auto ajuda" fica para um próximo desabafo futil)


Um exemplar de Bukowski no colo. Ela olhava para aquelas letras ébrias. Afinal, todos seus amigos haviam lido Bukowski, por que ela não? Estava gostando das palavras daquele velho bêbado. Lia em inglês, como haviam sido escritas. Ela não gostava de tradutores, eles tiram a voz do autor da obra, ela perde a originalidade.

Sentada em um ponto de ônibus com um Bukowski no colo. Não o velho, o livro. A cabeça abaixada e os cabeços pendidos para frente, ocultando o rosto. Concentrada. Lia Bukowski.

- Agáuhacari!

Um sussurrido ininteligível alcançou-a, desconcentrou-a. Ela buscou o som e a frente havia um pequeno rosto redondo, branco de bochechas rosadas, cabelos loiros lisos caindo nos olhos, que eram pequenos, vagos e escondidos atrás de grossos óculos. Um rosto jovem e especial.

O rosto estendia-lhe o braço. E o rosto sorria. Ela retribuiu a mão e o sorriso. O rosto fez uma pose cortês e beijou docemente a face externa, próximo aos dedos. Os mesmos que, segundo antes, apoiavam Bukowski, o livro.

- Likihuácam!

Novamente sons ininteligíveis foram esternutados daquele rostinho terno e especial. Um rosto que sorria. Ela sorria.

E o rosto foi embora, saltitando, de encontro ao pai, tão diferente, que o esperava alguns passos à frente.

E ela ficou sozinha com Bukowski novamente. O velho, não o livro.



Quinta-feira, Novembro 27, 2003

Sim... Hoje chorei... Chorei para não quebrar as coisas a minha volta. Chorei de raiva... Chorei porque fiquei um tempo incomensurável com desejo de comer uma determinada coisa e quando finalmente tive a oportunidade uma alma filha da puta fez isso por mim e tirou-me todo o trabalho.
Chorei para não quebrar o copo cheio de leite, que eu derramei trêmula ralo abaixo... Chorei para não quebrar a porta dos armários...
Chorei para não chutar o cachorro que fez isso...
Sim, porque comparo um cão a uma criança....
Sim, porque desonro um cão fazendo tal comparação.
FODA-SE!


Atavismos

Do meu bisavô posso afirmar pouco. O que sei a respeito dele restringe-se a um caderno de notas onde foram guardados para a posteridade dados sobre a fazenda e pequenas considerações sobre as plantações.

De meu avô posso afirmar que é um bom filósofo. Escreve esplêndidos ensaios, teses e dissertações, movido apenas pela diletância. Escritos que, dependendo dele, nunca serão lidos.

De minha mãe afirmo seguramente que é uma boa sentimental. Escreve crônicas que tem um potencial literário que ela não imagina. Em sua maioria são acontecimentos simples adornados com poesia e sentimentos.

Quanto a mim, não digo muito. Sou uma péssima romântica e poetisa medíocre. Uma crontista e cronista leviana e uma filósofa ignorante.


Quarta-feira, Novembro 26, 2003

- Eu te amo.
- Eu te amo mais...
- Está bem.
- Como assim?
- Como assim o que?
- Você não vai falar "Não, eu te amo mais"?
- Para que?
- Para eu poder falar "EU te amo mais"!
- Para que?
- Credo... Falando assim parece que você não me ama!
- ...
- Eu te amo, Fabrício! Você não me ama?
- Eu já disse que te amo, não disse?
- Você não me ama...
- Tem razão! Não te amo!
- ...
- Já disse que te amo, não?
- Você não me ama?

Ele então olhou para ela, aquele ser frágil que suplicava palavras doces e ansiava por um jogo lúdico de competição. E ele gostava da fragilidade dela, sentia vontade de carregá-la no colo e mimá-la. Tanto que não se conteve, mesmo tendo consciência de que aquele jogo que ela tanto desejava participar não passava de um desses retornos dos apaixonados à infância, de algo sem sentido e quase emético.

- Eu te amo mais...

Ele pôde notar então o nascimento de um pequeno sorriso escondido no fundo de um rio com nascente nos olhos e foz no queixo.


Terça-feira, Novembro 25, 2003



"Ela me disse: Do lado de fora da minha janela há um corvo congelado num galho, e ele está me dizendo alguma coisa, mas não consigo ouvi-lo. (...) Numa árvore coberta de geada havia de fato um corvo. O que ele poderia dizer? Nunca mais, nunca mais. Achei que o compreendia: nunca mais encontraríamos alguém que amássemos tanto."
(Amor e Lixo, Ivan Klíma)

Adorei a referência.
Um artista tcheco que viveu na Tscecoslováquia comunista e tinha seus livros proibidos por lá até há pouco tempo...

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

(excerto de O Corvo, de Edgar Allan Poe, em uma tradução de Fernando Pessoa)


Se alguém tiver a oportunidade de assistir o especial NO DIA DAS BRUXAS (The Simpson's Halloween Special: Tree House of Horror) dos Simpsons, não perca... Há a leitura de O Corvo, do Poe, na tradução do Fernado Pessoa. Muito bonito.

-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-

Não gosto muito de postar resultados de testes e etc... Mas esse foi tão bonito que não resisti...

HASH(0x86c9d6c)
schizoid


Which Personality Disorder Do You Have?



Há um certo tempo atrás assisti um certo filme francês. Nele há uma certa sequência que me deixou pensativa por um tempo.

Uma mocinha bonitinha saiu (sozinha) mais cedo de uma danceteria. Ela precisava atravessar uma rua muito movimentada e uma prostituta (sim, era um bairro "público") aconselhou-a a utilizar a passagem subterrânea. Então, a mocinha sozinha, bonita e bem vestida, atravessa a passagem subterrânea teoricamente escura e vazia.
(O que acontece adiante eu não preciso contar. O filme é Irreversível)

Como uma mocinha fez a opção de passar sozinha por um lugar que oferecia tantos riscos? Será que ela não sabia que existem assassinos e estupradores e assaltantes... Ela simplesmente embrenhou-se pelo pequeno labirinto desconhecido...
Fiquei pensando nisso por um bom tempo. Como poderia ela ter sido tão burra? Tão corajosa?

Foi então que cheguei a uma brilhante conclusão... Tão óbvia, mas que me evitou por um bom tempo...
O filme é FRANCÊS... Isso significa que NÃO é brasileiro... Significa que ele se passa na FRANÇA... Com prostitutas francesas, mulheres francesas, perigos franceses, medos franceses, índices franceses... Realidade francesa!

Droga de país com S...
Graças a deus que não sou patriotra...


Segunda-feira, Novembro 24, 2003

A Cortesã

Ela acordou. Um bocejo. Levantou-se lentamente, não queria acordar o filho. Todos os dias ela fazia a mesma coisa: acordava antes da aurora, tremia de frio, arrumava-se, pegava os instrumentos e saía para o trabalho. Nesse dia, porém, ela fez algo diferente. Despertou o menino com um doce beijo na testa e disse que o amava. O menino fitou-a com sonolentos olhos verdes segundos antes de dormir novamente.

Com um violão nas costas ela caminhou até o local de trabalho. Ela chamava a atenção com seus longos cabelos castanho-dourados com cachos nas pontas e seus olhos verdes. Quando cantava era impossível não notá-la. Mesmo que os olhos ignorassem os a pele alva, a boca bem desenhada e os demais dotes físicos dignos da Vênus de Botticelli, era impossível aos ouvidos não notar a voz suave e marcante, hipnótica. Sempre que ela colocava o violão no colo e começava a dedilhar algumas notas, cantarolando palavras doces, era impossível não reunir um grupo de rostos desconhecidos para ouví-la. E isso era bom, pois era o trabalho dela.

Sentada em um banquinho na praça da Sé ela tocava (e cantava) músicas doces e próprias. Esforçava-se para adoçar um pouco a vida daqueles milhões de paulistanos que passavam por ela e paravam para ouví-la. Milhares de pessoas, milhares de rostos diferentes que se repetiam algumas vezes, e uma caixinha cheia de notas e moedas que as pessoas depositavam voluntariamente em troca daqueles momentos de candura.

Naquele dia, porém, algo diferente ocorreu. Ela notou, no meio da multidão, um rosto tão hipnótico quanto a sua voz. Notou lágrimas escorrendo dos olhos daquele rosto. Ela sentiu vontade de abraçar aquele estranho e chorar com ele. Precisou esforçar-se para não esquecer a letra da música nem dedilhar notas trocadas. O grupo que havia se reunido para ouví-la dissipou ao fim da música. Ela ficou só com o estranho que, ainda chorando, depositou uma nota de cinco reais na caixa aos pés dela e saiu, enxugando as lágrimas.

Após aquele ato ela recolheu o dinheiro da caixa, guardou o violão e olhou em volta buscando um lugar para ficar só. Entrou na Catedral da Sé e sentou no último banco, próximo à porta, pois não teve forçar para caminhar muito. Fez então algo que nunca havia feito: escondeu o rosto entre as mãos e chorou. Chorou pela gravidez indesejada, que lhe havia dado um filho maravilhoso; pelo dinheiro que arrecadava, que era pouco para pagar o aluguel e comprar comida para o menino; pelos amigos que havia perdido abandonando a escola; por sua irmã, que cuidava do menino enquanto ela trabalhava; chorou pela solidão que a acompanhava desde suas primeiras lembranças.

Ela voltou para seu filho mais cedo naquele dia. Já não chorava quando chegou em casa. Abriu a porta e viu o menino, que ao perceber a presença dela assustou-se e começou a derramar lágrimas. Não a havia reconhecido e foram preciso muito carinho e palavras de amor para que ele se convencesse de que aquela ao seu lado era sua mãe.


Sábado, Novembro 22, 2003

pictures on my wall

A caminhada é um ótimo exercício para ajudar-nos a lembrar de coisas. Hoje enquanto caminhava em busca de algo sem muito interesse recordei-me de uma historinha que ocorreu (ou não) comigo. Narro-a sem grandes preocupações estilísticas ou ortográficas ou gramaticais. Narro-a apenas porque acho-a bonita. Triste, como as coisas normalmente ocorrem comigo.


Eles eram primos. Encontravam-se apenas alguns meses por ano. Viviam uma história que nunca havia acontecido. Ela o admirava por ser discreto, indiferente e inteligente. Ele a admirava por ser reservada, misteriosa e tímida. Gostavam de estar na companhia um do outro e apesar de pouco conversarem entendiam-se.

Então ele se apaixonou. E a paixão virou namoro, o namoro noivado. Não, não era por ela, mas sim por outra sociável, transparente e leviana. Por outra tão diferente...

Mas, ao contrário do que a história sugere, eles não se casaram nem tiveram cinco filhos. Houve um acidente e a noiva faleceu alguns dias antes da cerimônia.

Hoje ela sabe que a história que nunca havia acontecido não passa de nostalgia. Eles não conseguirão olhar-se mais. Entre eles haverá sempre um fantasma loiro, ciumento e sorridente.


Quarta-feira, Novembro 19, 2003

Alguém, por favor, me mata...
Mas mata direito, de um modo lento e doloroso... Muito doloroso... Lentalentamente...
Cometi uma heresia hoje, por conta da burrice... Da incapacidade de camuflar a verdade quando é necessária uma resposta rápida.
E tudo que eu precisava responder era "SIM"!!! Na pior das hipóteses "Eu consigo me comunicar"... Era tudo, TUDO, que eu precisava ter feito... E não um ahnn... Mais ou menos inseguro. BOSTA BOSTA BOSTA.

ALGUÉM POR FAVOR, ME MATA! EU SOU TÃO INÚTIL QUE NÃO CONSIGO FAZER ISSO SOZINHA.....
Mas não se esqueça: dolorosamente e lentamente... Com muito sofrimento... E sangue... Muito sangue... E para eu sofrer mais ainda: Ocean Rain como trilha sonora...


Terça-feira, Novembro 18, 2003

Charles Bukowski.
MAIS

Melancolia

a história da melancolia
inclui todos nós.

eu, eu escrevo em lençóis sujos
enquanto olho para paredes azuis
e nada.

eu já me acostumei tanto com a melancolia
que
eu a reçebo como uma velha
amiga.

eu terei agora15 minutos de aflição
pela ruiva perdida,
eu digo aos deuses.

eu faço isso e me sinto bastante mal
bastante triste
então eu levanto
LIMPO
apesar de que nada
está resolvido.

isso é o que eu ganho por chutar
a religião na bunda.

eu deveria ter chutado a ruiva
na bunda
onde o cérebro e o pão e
a manteiga dela
estão...

mas, não, eu me senti triste
por tudo:
a ruiva perdida foi apenas outro
rompimento em uma vida
de perdas...

eu ouço a bateria no rádio agora
e sorrio.
há alguma coisa errada comigo
alem
da melancolia.


Quinta-feira, Novembro 13, 2003

O seguinte conto foi escrito durante uma atividade lúdica auto-imposta. Não há preocupações métricas, estéticas, gramaticais, musicais ou qualquer outro tipo de restrição que possa se adotada no ato da composição.

Conto Simples

Era uma vez uma princesinha do papai chamada Clarissa. Ela tinha doze anos e sonhava. Sonhava que um dia poderia voar. Mas Clarissa não vivia de sonhos. Ela ia a escola, tinha amigos, ajudava nas tarefas domésticas e sentia saudades de Teresa, a mãe de Clarissa, que agora vivia nos sonhos de Deus.

Certo dia, enquanto Clarissa preparava-se para dormir, ela notou um brilho atrás da cortina. Clarissa não ficou com medo. Ela ficou muito curiosa. Saiu de debaixo das cobertas, caminhou vagarosamente até a janela e afastou a cortina. Clarissa ficou grudada no chão, com os olhos esbugalhados e a boca aberta. Era a mãe dela, envolta em uma áurea brilhante. E ela tinha asas.

- Voe, Clarissa, voe... disse Teresa.

Naquela noite a menina não conseguiu dormir. Antes da aurora ela se levantou. Com passos rápidos caminhou até a janela do quarto. Afastou as vidraças, subiu no parapeito. Olhou para baixo, eram seis andares. Clarissa abriu os braços lentamente e deixou o corpo tombar em direção ao vôo. E Clarissa voou. Voou em direção ao sol, que emergia do mar, enquanto assistia o pouso de uma andorinha.


Domingo, Novembro 09, 2003

Ela é fascinada por pessoas diferente daquelas que encontra todos os dias. Planeja tingir os cabelos de vermelho forte, fazer um piercing na língua e uma tatuagem bem grande no braço. Provavelmente começará a fumar daqui a alguns anos. Cigarros fortes, de filtro amarelo, ou acanelados, ou mentolados, o que estiver mais acessível. Terá amigos homossexuais que dividirão com ela, eventualmente, erva-calmante.

Ela também extravasa os sentimentos em telas. É artista. Quadros de orientação expressionista-modernista, com pinceladas fortes, excesso de tinta e temas simples ou extremamente complexos, dependendo da inspiração. Seus quadros são dessa maneira porque ela assim os quer, não porque conhece estilos ou escolas, pois não conhece.

Uma personalidade marcante e um olhar decidido.

Ela tem nove anos e um nome, Camila.


Segunda-feira, Novembro 03, 2003

Algumas coisas simplesmente acontecem para nos desagradar. Meu piercing estava quase sarando, cicatrização perfeita, sem inchaço... Inventei de comer pizza. Já era. Inchaço e dor e quelóide e uma pelezinha que cisma em crescer e diminuir e crescer e crescer e diminuir...

Ainda não removi a jóia. Tenho esperanças na melhora (ou em algum médico que queira me curar sem remoção do piercing) e receio de furar novamente. Dor e incômodo dos primeiros dias são inigualáveis. Nesse caso a "diacronicidade" e a longevidade do sofrimento são mais suportáveis do que sua intensidade.

Faz um tempo que não escrevo aqui, não? Acho que estou um pouco "estacionada" em meus textos. Não encontro motivação para escrevê-los. Acho que caí em letargia criativa. Acontece. É o tipo de coisa que chega e vai... Volta e sai... E associado ao stress vestibulístico torna-se inevitável, essa letargia. A necessidade de manter-me calma e preparada para as dissertações/interpretações fuvésticas fez-me tirar férias de meus textos, que por mais simples e frívolos e escusados e, e, e... Por mais isso tudo que sejam eles exigem atividade cerebral e dedicação da minha manca inteligência.

Se desejo passar no vestibular, além ter canalizado toda minha calma para a prova, eu preciso parar de matar aulas. Foram quase duas semanas seguidas sem ver a cara dos professores, ou dos Tês, ou da Eme, ou da Ele ou do Erre... Preciso criar vergonha na cara e parar de ficar visitando cemitérios, e bibliotecas e o santuário capitalista. Parar de ficar procurando cantinhos altos, aconchegantes, escuros, solitários e com uma boa vista.

Ahh... Esses cantinhos completos... Só falta a vontade de fumar quando estou neles. Não porque reprima minhas vontades, mas para compor a paisagem. Falta um cigarro. Não em mim, mas na obra, no cenário.

Hoje visitei um cemitério. Necropole Sao Pavlo. Matei aula para fotografar arte mórbida. O cemitério estava florido. Dia seguinte a finados combina com esqueletos de flores aos milhares. Um cenário ainda mais mórbido e bonito. Eu gosto de lírios. Gosto do cheiro, da aparência e daquela história de chá, embora eu não tenha tido coragem para experimentar. Fiquei com medo de beber demais e ficar estragada para o resto da vida. Com relação às fotos, ficaram boas. Talvez eu as publique em algum site, talvez não.

Nossa, você gosta de sofrimento, não? Ainda lendo esse meu texto quase escrita automática? Pode parar, mesmo porque eu irei parar de escrever.


Domingo, Outubro 26, 2003

Tirocínio Cafona-Melado-NãoFeliz:


Os olhos perdidos no fabuloso e um movimento frenético de bater de lápis contra o caderno. Eventualmente a mão desocupada afasta uma mecha teimosa dos olhos, mas não sem uma quase imperceptível alteração do ritmo com que o lápis encontra o bloco de folhas níveas unidas por um espiral metálico. Uma menina boba, que tenta tomar conta de si mesma enquanto observa o pequeno menino de olhos azuis e cabelos longos.

Sente o sabor mentadocicado do beijo dele. Ela o conhece. Ele a compreende e a deseja. Beija-a enquanto desliza a mão pela nuca tensa dela. Os corações aceleram e batem juntos, em um só rítmo. O lápis, o papel.

Ela se perde enquanto vigia-o. Observando-o esquece de si mesma. O lápis, sopesado, não mais compõe melodias arrítmicas. Ela, inerte, os olhos perdidos no vazio de cabelos castanhos e longos. Sonha e sonha, sem nunca acordar. Ele, atento ao que é dito por alguém desinteressante, sentado ao lado, com longos e lisos cabelos louros suspensos por pequenos laços. Ignora-a.


Quarta-feira, Outubro 22, 2003

As idéias correm do papel. Ela estava aqui: bonita, cheirosa, livre e solitária. Completa e viva. Mas o simples ato de retirar um pequeno bloco de folhas pautadas e uma lapiseira cinza da bolsa afugentou-a, como se fossem não apenas lápis e papel, mas cartões de natal e presentes de aniversário.


This page is powered by Blogger. Isn't yours?